O Prazo de Validade das Nossas Relações por Gabriel Rasteli

Quanto tempo dura uma relação? Por que as relações duradouras estão cada vez menos frequente? Quando foi que nós, como sociedade, nos desconectamos um do outro e nos isolamos em nossa singularidade?

Assim como no supermercado analisamos o que vamos comprar e ficamos atentos à embalagem para conferir o prazo de validade do produto. Nos habituamos a trazer esse método para nossos relacionamentos interpessoais.

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Trouxemos para nossas mesas e sofás a psicologia do consumo. Permitimos que o desejo pelo próximo lançamento diluísse os nossos traquejos sociais.

Acompanhe o raciocínio, quando compramos um celular ficamos muito empolgados com tudo o que ele oferece. A bateria tem longa duração, a tela está brilhando e já até colocamos uma película adequada. A memória dele é maior. Enfim, tudo é incrível.

Mas a medida que o tempo vai passando, o cuidado com o celular não é mais o mesmo, a tela já está sem película, a bateria já não dura mais. E a memória? Ah, já foi pro espaço. Em tão pouco tempo, o que era motivo de muita euforia, se tornou ansiedade. Agora, não compensa mais “mandar arrumar”, é preciso trocar.

E esse mesmo pensamento tem invadido os relacionamentos. Onde tudo no começo é motivo para festa, com o passar dos dias a relação começa a se desgastar. E não há mais razões para fazer uma manutenção na relação. Uma vez que já estamos tão acostumados com essa situação: se algo está apresentando problemas e não está funcionando como o esperado, o entendimento é de que não vale a pena consertar, é preciso de outro, é preciso trocar.

Assim, as individualidades se sobressaem. Não há mais concessões. A cultura da troca e do consumismo que prevalece nas relações comerciais também tem sido soberana nas relações pessoais.

É preciso de maturidade para lidar com desgastes, desconfortos e situações adversas. Mas, não é totalmente o oposto que compramos? Queremos itens novos, que nos tragam confortos e nos promovam sensações agradáveis.

Sem perceber, nos moldamos para uma realidade onde o confrontamento de ideias, uma discordância está mais parecida à uma traição do que um mero contraponto.

Dessa maneira, criamos uma bolha a nossa volta. E se alguém ousar em discordar não haverá nem tempo de ser ouvido, será taxado como tóxico e será excluído. Perdemos o diálogo.

Esse fenômeno também pode ser notado no mercado de trabalho. É cada vez mais incomum encontrar alguém que trabalhe em uma mesma empresa durante muito tempo. A troca de emprego tem sido comum. Outro fator que corrobora é a transição de carreira. A cultura mudou.

As relações ficaram mais rasas para não dizer supérfluas. Num mundo de relações breves e relacionamentos curtos é preciso de muita coragem e esforço para manter um relacionamento perene e duradouro.

Que a coragem jamais nos falte, que o diálogo jamais seja esquecido e que o elo que sustente as nossas relações seja fruto de um vínculo construído em amor.

 

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