A construção da maior usina de dessalinização de água do mar do país, situada em Fortaleza, está no centro de uma acirrada controvérsia entre o governo cearense e as operadoras de banda larga e data centers. Estas alegam que a empreitada representa uma ameaça aos cabos submarinos que conectam o Brasil à rede global de computadores.
A questão crucial reside na escolha do local para o empreendimento, que foi fixado na praia do Futuro, onde desembarcam 17 cabos e se encontra o segundo maior centro do mundo de sistemas ópticos submarinos, superado apenas por Marselha, na França. Segundo o Ministério das Comunicações, 99% do tráfego de internet do Brasil passa por esse ponto vital, que também serve aos países vizinhos e à África.
O governo cearense argumenta que mudar o local da obra não é mais uma opção viável e que não existe risco substancial. No entanto, as empresas sustentam que, caso a obra permaneça, há um perigo real de “apagão” na internet do país. O governo federal observa a situação com grande inquietação.
Fortaleza foi escolhida como sede da usina devido à sua localização estratégica em relação aos Estados Unidos, onde se concentra a maior parte dos dados de internet do mundo.
Há preocupações quanto à possibilidade de a obra gerar interrupções na internet devido à proximidade do hub de comunicação. O projeto inicial precisou ser ajustado para aumentar a distância dos dutos em relação aos cabos, mas isso por si só não oferece garantias suficientes de segurança, dada a magnitude da empreitada.
Em média, os cabos submarinos têm uma vida útil de 20 a 25 anos, e novos projetos estão em andamento. Caso a usina seja construída no local atual, empresários cogitam buscar alternativas.
De acordo com o presidente da Cagece, Neuri Freitas, a reclamação das empresas chega em momento inoportuno, uma vez que o projeto foi iniciado em 2017 e passou por debates e audiências públicas. Segundo ele, o governo cearense já fez ajustes no projeto, levando em consideração as demandas das empresas e mudando a localização dos dutos.
Entretanto, para Neuri, a mudança de localização demandou estudos adicionais, atrasando o início da obra em um ano e aumentando os custos em R$ 35 milhões. Para ele uma usina distante de Fortaleza exigiria uma adutora para trazer a água, o que resultaria em custos substancialmente mais elevados.
Quanto ao cruzamento de cabos na área terrestre, Neuri afirma que não há risco significativo, já que na região já existem tubulações de alta espessura. Ele classifica o argumento das empresas como infundado.
As discussões envolvem diversos órgãos, incluindo o Ministério das Comunicações, a Anatel, a SPU, a Marinha, o governo do Ceará e os consórcios que operam os cabos, bem como as entidades do setor. Todos buscam um ambiente seguro e livre de riscos para as infraestruturas.
As empresas, por sua vez, reforçam a importância de preservar a integridade dos cabos submarinos para garantir a disponibilidade do ecossistema de telecomunicações do país e a comunicação do Brasil na internet.
A usina aguarda o licenciamento ambiental e a liberação da SPU, com um investimento previsto de R$ 520 milhões na planta, além de R$ 2,5 bilhões para a manutenção e operação do sistema ao longo de 30 anos. O projeto beneficiará cerca de 700 mil pessoas na capital cearense e terá um impacto positivo em todo o estado, uma vez que a água que abastece Fortaleza, que não possui fontes locais, é proveniente do interior.
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