Existe uma data no calendário que, para mim, não é só uma data — é um lembrete. No dia 27 de agosto celebramos o Dia do Psicólogo, o profissional habilitado e orientado pelo Conselho Federal de Psicologia, guardião ético dessa ciência. E digo “celebramos” com a intenção de convidar você, que está lendo, a olhar para essa profissão com outros olhos.
A psicologia, enquanto ciência e profissão reconhecida no Brasil, tem apenas 64 anos. É jovem. Mas em pouco tempo se tornou essencial num país que carrega, com tristeza, um dos maiores índices de ansiedade e depressão do mundo. E é justamente aí, na linha de frente desse sofrimento silencioso, que a psicologia tem se colocado.
Um passado que não pode ser esquecido
Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que pessoas com transtornos mentais, ou mesmo com alguma deficiência intelectual, eram mantidas trancadas em sanatórios, afastadas do convívio social — porque a sociedade, simplesmente, não sabia o que fazer com a dor que não entendia.
É por isso que a Luta Antimanicomial, lembrada em 18 de maio, é tão importante. Ela é, ao mesmo tempo, histórica e diária. Histórica, porque milhares de pessoas foram silenciadas sem receber o cuidado humanizado, acolhedor e multiprofissional que mereciam. Diária, porque o preconceito e a discriminação ainda existem — mesmo que, sobretudo depois da pandemia, estejamos vivendo uma abertura maior para falar de saúde mental.
O que faz, de fato, um psicólogo
Talvez a maior confusão sobre essa profissão seja essa: o psicólogo não dá conselhos. Ele não diz o que você deve ou não deve fazer. O que ele oferece é escuta — uma escuta que se repete, se aprofunda, e que vai, aos poucos, ajudando você a tecer sua própria identidade, a entender o que realmente faz bem para você.
Muita gente chega ao consultório sem saber o que gosta. Sem saber quem é. Sem saber para onde está indo. Nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos — e nessas fases, sem perceber, vamos deixando de nos observar. Chegam à vida adulta com uma queixa pontual — “sinto ansiedade”, “não sei lidar com pessoas que não mudam perto de mim” — e, no processo, tão bonito quanto doloroso, vão se conhecendo, assumindo responsabilidades e, principalmente, reencontrando o amor próprio.
Amor próprio em tempos líquidos
Vivemos numa modernidade líquida, onde os afetos são rápidos, passageiros — hoje se tem, amanhã pode não se ter mais. E, no meio dessa fluidez toda, existem pessoas que se machucam. Que ficam machucadas. A psicologia está ali, atrelada ao desenvolvimento humano em todas as suas dimensões: pessoal, profissional, emocional. Por isso o psicólogo precisa ler — e ler muito — para poder acompanhar o ser humano em todas as suas esferas.
Uma rede de cuidado o ano inteiro
No Brasil, diversas campanhas reforçam esse cuidado coletivo: Agosto Lilás, de enfrentamento à violência contra a mulher; Setembro Amarelo, mês de valorização da vida; Outubro Rosa, de combate ao câncer de mama; Novembro Azul, de combate ao câncer de próstata. Cada uma delas carrega uma mensagem que deveria alcançar todos os cidadãos.
Uma profissão que se vive
Para mim, conviver com a psicologia não é só profissional — é um sonho pessoal. Eu vivo a psicologia. E ela me ensina, todos os dias, sobre equilíbrio: aquilo que não está sob o meu controle não me pertence; aquilo que é do outro, é do outro. Muitas vezes queremos controlar tudo, e é aí que a psicologia soma, contribui, reorganiza.
Não é à toa que, em 2026, a psicologia bateu recorde de procura no vestibular, superando até a medicina. O mundo pós-Covid não é mais o mesmo, e os transtornos mentais têm nos impedido de viver com bem-estar e qualidade de vida. Como bem, o contrário de saúde não é doença — é bem-estar e qualidade de vida. Adoecer é inerente ao ser humano: podemos adoecer na vida intrauterina, na infância, na adolescência, na vida adulta ou na velhice.
Um convite
Então fica o convite: vamos nos cuidar. Vamos nos proteger. Vamos querer bem a nós mesmos. Vamos desmistificar a terapia — ela não é luxo, e você não “precisa aguentar sozinho”. Você precisa de um espaço ético, seguro e sigiloso, onde aquilo que você fala não sai dali de jeito nenhum.
Existem diversas abordagens — psicanálise, psicologia lacaniana, junguiana, e a terapia cognitivo-comportamental, que desde a década de 1970 vem ganhando espaço por trabalhar a mudança de pensamento e de comportamento. Cada pessoa encontra o caminho que mais faz sentido para si.
Psicologia é vida. E psicologia salva.